T Ó P I C O : A importância do zinco para o cafeeiro vai além da auxina - Por Prof. Paulo Mazzafera (Unicamp) e MSc Davi Moscardini (Nitro)
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A importância do zinco para o cafeeiro vai além da auxina - Por Prof. Paulo Mazzafera (Unicamp) e MSc Davi Moscardini (Nitro)
Autor: Leonardo Assad Aoun
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Último comentário neste tópico em: 12/01/2023 19:15:01
Leonardo Assad Aoun comentou em: 12/01/2023 18:52
A importância do zinco para o cafeeiro vai além da auxina - Por Prof. Paulo Mazzafera (Unicamp) e MSc Davi Moscardini (Nitro)
A importância do zinco para o cafeeiro vai além da auxina
Prof. Paulo Mazzafera (Unicamp) e MSc Davi Moscardini (Nitro)
O Zinco (Zn) é um micronutriente em plantas, necessário em quantidade pequena, mas tão importante quanto os macronutrientes, demandados em grande quantidade. A mais frequente importância que damos ao Zn é o seu papel no crescimento de tecidos, já que ele é um cofator da enzima triptofano sintetase, responsável pela síntese do aminoácido triptofano, precursor do ácido índol-3-acético (AIA ou auxina). Apesar desta ser sua função mais famosa nas plantas, é importante esclarecer que o Zn também é um constituinte e cofator de outras enzimas muito relevantes para o metabolismo vegetal:
Álcool desidrogenase (ADH)
Esta enzima é muito importante quando ocorre falta de oxigênio no solo, como em casos de encharcamento e em solos compactados. Nessas situações, a ADH é importante para diminuir a toxicidade de compostos produzidos pela respiração anaeróbia (que ocorre em ausência de oxigênio). Ela transforma o acetaldeído (muito tóxico) em etanol, menos danoso às células e passível de ser eliminado pelos estômatos através da via transpiratória. Apesar disso um tempo muito longo de hipoxia (baixo oxigênio) ou anoxia (sem oxigênio), pode levar a uma concentração muito alta de etanol, levando à toxidez. As raízes são os órgãos mais afetados pela falta de oxigênio, mais abundante em solos bem estruturados.
Assim, o Zn é importante em momentos de elevada precipitação, como está ocorrendo nas principais regiões cafeeiras do país neste mês de janeiro. Plantas mal nutridas em Zn sofrerão ainda mais com este excesso de água, podendo apresentar danos no sistema radicular neste momento crítico de granação dos frutos.
Superóxido dismutase (SOD)
Existem diversos tipos de SOD e uma delas é dependente de Zn e de cobre (Cu). A Cu/Zn-SOD é predominantemente encontrada no cloroplasto e no citoplasma das células. A principal ocorrência de espécies reativas de oxigênio (ROS) se dá no cloroplasto e a função da Cu/ZN-SOD é proteger esta estrutura do estresse oxidativo, uma vez que é capaz de eliminar o íon superóxido, um dos mais danosos às células vegetais. Isso mostra mais um papel importante do Zn no cafezal, conferindo maior tolerância a estresses, especialmente a ocorrência das escaldaduras foliares, muito comuns no sistema de cultivo a pleno sol.
Frutose 1,6-bisfosfato aldolase (F16BP-aldolase)
A energia luminosa capturada pela fotossíntese em açúcares tem vários destinos na célula vegetal, e um deles é gerar ATP. A fonte de ATP é a respiração, que se divide em 3 etapas: glicólise, ciclo do ácido cítrico (ou Ciclo de Krebs) e cadeia transportadora de elétrons na mitocôndria, sendo nesta última onde se forma a maior quantidade de ATP nas células. Entretanto, para que esta última etapa aconteça, é necessária a primeira, que vai quebrar a glicose proveniente da fotossíntese. A F16BP-aldolase atua nas etapas iniciais da glicólise e, assim, a geração de ATP pode ser afetada pela deficiência de Zn, comprometendo todas as rotas metabólicas que dependem dele, como por exemplo, a absorção de nitrato pelas raízes. Portanto, a adequada nutrição com Zn também impacta o aproveitamento da adubação nitrogenada do cafeeiro.
Zn-polimerase e síntese de proteínas
Quando os níveis de Zn caem nas células, a concentração de proteínas diminui e a quantidade de aminoácidos livres aumenta. Isso acontece porque na deficiência de Zn ocorre queda na síntese de RNA, processo mediado pela enzima Zn-polimerase, e também porque o Zn é importante na manutenção da integridade dos ribossomos, onde o RNA será traduzido para aminoácidos e, posteriormente, formadas as proteínas. Além disso, a falta de Zn induz enzimas que degradam RNA (RNases), contribuindo mais ainda para a queda em proteínas. Com isto, se faltam proteínas, sem dúvida o metabolismo celular será afetado.
Um exemplo importante é o papel do Zn na síntese de proteínas do tubo polínico, onde os níveis desse micronutriente podem ser até três vezes maiores do que os encontrados em outros tecidos, evidenciando sua importância na fase reprodutiva do cafeeiro.
Deficiência de zinco no cafeeiro
O sintoma típico da deficiência de Zn no cafezal é o encurtamento de internódios e a formação de folhas pequenas e lanceoladas (Figura 1). Este sintoma é frequente em plantios, recepas e em cafeeiros esqueletados. Nestas situações a deficiência fica mais evidente devido à grande importância da auxina para o crescimento vegetativo, que é o maior dreno em cafés sem carga. Outras ocorrências comuns de deficiência são em solos argilosos e de elevado pH, duas situações que favorecem a precipitação do zinco para formas não absorvíveis pelas raízes.
Como realizar o fornecimento de zinco no cafezal?
A maneira mais efetiva de suprir o cafeeiro com Zn é pela combinação do fornecimento via solo associado às pulverizações foliares. Muito cafeicultores já estão habituados ao uso de fertilizantes foliares contendo Zn e acreditam que apenas esta estratégia é o suficiente para a correção, o que é um equívoco, especialmente em áreas de alta produtividade.
É importante esclarecer que a mobilidade do Zn aplicado via folha é restrita, devido a seu baixo transporte via floema, similar ao que ocorre com o boro, que já é amplamente aplicado via solo nas principais regiões cafeeiras.
No solo, o teor deve estar entre 5 e 10 mg/dm³ (DTPA-TEA) na camada de 0-20 cm, o que garante que a produção não está sendo limitada por este nutriente, uma vez que o teor médio no solo corresponde a 90% de produção relativa. Durante os ciclo as pulverizações foliares complementam o zinco adquirido via solo, garantindo nutrição eficiente desse micronutriente fundamental para obtenção de altas produtividades.
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