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T Ó P I C O : A seca e a cafeicultura: o que a fisiologia vegetal tem a explicar - por José Donizeti Alves

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Comentários do Tópico

A seca e a cafeicultura: o que a fisiologia vegetal tem a explicar - por José Donizeti Alves


Autor: Sergio Parreiras Pereira

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15 comentários

Último comentário neste tópico em: 16/08/2014 10:45:43


Sergio Parreiras Pereira comentou em: 26/02/2014 21:05

 

A seca e a cafeicultura: o que a fisiologia vegetal tem a explicar - por José Donizeti Alves

 

A seca e a cafeicultura: o que a fisiologia vegetal tem a explicar

Prof. José Donizeti Alves*

Em vista dessa catástrofe que a cafeicultura brasileira está vivendo, gostaria de acrescentar alguns pontos que ainda não foram discutidos ou se foram, foi feito de maneira hipotética.

Muita coisa já se falou sobre os efeitos da seca na produção do café. E eu, me desculpe o trocadilho, não quero “chover no molhado”. O fato que ninguém contesta é que essa anormalidade meteorológica havia décadas não se manifestava. Pelo menos em termos de intensidade e durabilidade. Infelizmente dessa vez ela veio acompanhada de temperatura e luminosidade extremamente altas e ocorreu/ocorre em fases fenológicas das mais exigentes em termos de água, temperatura e luminosidade adequada.

As consequências práticas disso tudo também já foram mostradas e debatidas nesse espaço. Em termos de produção o que se vê é escaldadura das folhas; frutos pequenos, desidratados com descolamento do pergaminho (endurecido) da semente, mumificados, grãos mal formados, altíssima percentagem de grãos chochos. Todas essas anormalidades fisiológicas devem ser vista como BASTANTE ELEVADAS. Esta é a diferença fundamental dessa seca com as outras em anos passados. Ou seja: sem qualquer intenção de ser alarmista ou partidário do “quanto pior melhor”, a situação da cafeicultura brasileira desta vez é extremamente grave.  Conclusão óbvia: a safra de 2014 está fortemente comprometida tanto em termos de quantidade quando de qualidade.  Em minha opinião, depois de visitar várias regiões cafeeiras, deduzo que a perda vai variar entre 20 a 45% dependendo da região.

Em termos de crescimento vegetativo, a seca e o calor vieram em uma época de pleno crescimento de folhas e ramos. Portanto, ele também foi prejudicado. Isso equivale a dizer que a safra de 2016 também sofrerá reflexos negativos dessa estiagem. Como a fase de floração (não de florescimento) vai se iniciar nas próximas semanas, provavelmente, teremos problemas de indução de gemas reprodutivas o que vai refletir negativamente também na safra de 2015. Mas isso são assuntos para outra análise.

Preocupado com o momento atual, minha equipe foi ao campo (antes dos chuviscos da semana passada) para fazer um mapeamento da copa do cafeeiro mensurando vários parâmetros fisiológicos em um gradiente horizontal (da ponta dos ramos até o interior da copa, próximo ao tronco) e vertical (do ápice das plantas até a base da saia). Os dados estão sendo copilados, pois são objetos de uma dissertação de mestrado, mas preliminarmente revelaram aspectos interessantes e ainda não publicados na literatura cafeeira.

As folhas que às 5 horas da manhã tinham uma temperatura média de 21 °C (vejam que a noite estava quente) às 15 horas da tarde este valor subiu para 38°C. A temperatura da saia próxima ao tronco nesta mesma hora era de 33°C. Essas altas temperaturas, irá comprometer seriamente a fotossíntese, como se vera mais adiante.

O potencial hídrico que revela o grau de hidratação da planta, ou seja, a água que pode realizar trabalho, medido às cinco horas da manhã estava em -1,1 Mpa. Isto equivale a dizer o cafeeiro não recuperou à noite, a água perdida durante o dia. Isso porque a quantidade de água armazenada no solo não foi suficiente para tal. E para piorar, detectamos intensa morte de radicelas. De meio-dia até às 15 horas da tarde, o potencial hídrico tornou-se extremamente baixo atingindo, valores de -2,3 MPa. Este valor, para certas culturas significa “murcha permanente” ou morte da planta. Para o cafeeiro, segundo inúmeras pesquisas, é um valor que causa sérios danos, como queda na fotossíntese e translocação de carboidratos, murcha e queda de folhas, seca dos ponteiros, morte de raízes, queda no número e no rendimento de colheita, entre outros. O mais importante, o cafeeiro não morre e com a volta das chuvas ele recupera sua turgescência. Mas os danos causados pela perda de matéria seca (queda de folha, frutos e seca dos ponteiros) são irreversíveis.

Às nove horas da manhã, a fotossíntese, como é de se esperar, era a mais alta, mas o seu valor nas folhas da saia, foi em média, 64% menor quando comparado com aquelas do ápice. Da mesma maneira, as folhas mais internas da copa fotossintetizaram 54% menos que aquelas expostas ao sol. A partir dessa hora, a fotossíntese caiu substancialmente e às 15 horas, a região da copa com fotossíntese máxima apresentou uma taxa 75% menor quando comparada com a fotossíntese dessa mesma região as 9 horas. As folhas mais internas da copa, bem como as mais baixeiras, apresentaram taxas fotossintéticas próximas a zero.

Resumindo, considerando toda a copa do cafeeiro, a fotossíntese na maior parte do tempo operou em taxas extremamente insatisfatórias e em certos momentos negativa. Isso que dizer que o aporte de carbonos para o crescimento da planta, que equivale aos tijolos de uma parede em construção foi mínimo e em alguns casos, foram quebrados. E para quem entende pelo menos um pouco de bioquímica de plantas vera que esse ganho de carbono é suficiente apenas para a manutenção da planta viva. Muito pouco ou quase nada vai sobrar para o crescimento da planta, ou seja, se fosse uma construção não teria novas paredes e em alguns caso, haveria parede demolidas.

Com base nesses dados, agora, respondendo a inúmeras consultas que me fizeram, penso que, mesmo que as chuvas voltem, não haverá tempo suficiente (até que a estação seca e fria chegue) para o “enchimento dos frutos” e isso equivale a dizer que aquele espaço vazio, que muitos estão observando quando cortam os frutos transversalmente, não serão mais preenchidos, ou se forem, será muito pouco. Concluindo, a perda de rendimento na colheita, como muitos estão, empiricamente supondo, vai acontecer, com toda a certeza.

Essas minhas colocações vem no sentido de dar uma satisfação às pessoas que me perguntam por que até agora não me manifestei. Não o fiz, pois estava coletando dados de campo para poder fazer a afirmação que fiz no paragrafo anterior. Para não me prolongar mais, nos próximos dias darei continuidade ao assunto.


*Universidade Federal de Lavras 
Departamento de Biologia 
Setor de Fisiologia Vegetal 

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Cristiano Barbosa de Almeida comentou em: 27/02/2014 08:41

 

Parabéns nobre colega!

 

Seu artigo foi brilhante, embora seja uma triste notícia para toda a cafeicultura.

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Marcos Carvalho comentou em: 27/02/2014 09:15

 

Belo Trabalho

 

O que podemos concluir que esta seca vai ter consequências muito grave,que não podem ser avaliadas.

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João Marcos Altieri Ramos comentou em: 27/02/2014 10:07

 

Aula de fisiologia vegetal

 

Prof. José Donizeti

Parabéns pela aula de fisiologia vegetal. Realente seu artigo é brilhante. Esse é um excelente exemplo de ciência em prol da cafeicultura.

Creio que o setor cafeeiro deva ficar ainda mais preocupado diante destas constatações cientificas. Vai faltar café SIM !!!

Muito obrigado por compartilhar conosco seu conhecimento!

Atenciosamente

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Marcio Alves de Oliveira comentou em: 27/02/2014 10:59

 

Perda estimada.

 

Prezado Prof. José Donizeti Alves,

 

Parabéns pelo artigo bem explicado. Conforme dedução de perda escrito em seu artigo podemos afirmar que a perda média será de 32,5% na safra de 2014 no cinturão cafeeiro mineiro ou essa estimativa de perda são para os anos subsequentes até 2016?

Gostaria de saber também por que haverá perda na qualidade?

Atenciosamente,

 

Márcio A. Oliveira

CRA-01.049560/D

 

 

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Antonio Eduardo Furtini Neto comentou em: 27/02/2014 11:27

 

A seca e a cafeicultura...

 

Prezados Além das valiosas contribuições do prof. Donizete, gostaria de acrescentar mais um ingrediente no assunto. Penso que a nutrição das plantas também está seriamente comprometida pela falta de chuvas. Muito dos fertilizantes aplicados não se solubilizaram devido à falta ou pouca água no solo. Basta avaliar a quantidade de granulos de fertilizantes na saía das lavouras, que foram adubadas. Como as plantas devem chegar mal nutridas no período mais seco que se aproxima, espera-se problemas com alguns nutrientes, particularmente o fósforo e o boro que dependem de água para atingir as partes mais novas - ápice - das plantas. Como estes nutrientes em particular, e vários outros, estão ligados com a floração, é de se esperar problemas de desnutrição com reflexos na próxima florada.

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José Donizeti Alves Alves comentou em: 27/02/2014 13:38

 

Duvidas quanto a queda de safra e perda da qualidade

 

Prezado Marcio

Quanto à previsão de queda na safra de 2014, penso que não fui claro. Nas lavouras que visitei, observei anormalidades fisiológicas nos frutos que variaram de 20 a 45%. Essas propriedades visitadas têm uma grande probabilidade de que as perdas ocorram nessa proporção. Entretanto, a partir dessas observações, as quais numérica e qualitativamente não podem ser consideras como uma amostragem representativa de todas as regiões cafeeiras do Brasil, atribuir uma perda de 32,5% não é correto. Pelo que observei e pelo que tenho visto a partir de relatos de colegas e cafeicultores, a queda na produção brasileira de café vai ser representativa. Algumas propriedades terão perdas maiores, outras menores e algumas outras não terão perda nenhuma.

Quanto a qualidade, as pesquisas nos mostram que as altas temperaturas dos grãos, induzem a aumentos expressivos em sua respiração que por sua vez induz o estresse oxidativo que leva a formação de EROs (Espécies Reativas de Oxigênio) que comprometem a qualidade da bebida. Para que se tenha uma boa qualidade é necessário que os frutos produzam defesas antioxidantes para combater as EROs. Do “combate” entre defesas antioxidantes x EROs, sairá vencedor aquele que for numericamente maior. O que sabemos é que altas temperaturas produzem muitas EROs e poucas defesas antioxidantes.  Daí existem chances reais das EROs vencerem este “combate”, infelizmente. Tudo dependerá da capacidade de reação dos frutos e esse dado, até o momento,  ninguém possui.

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Hélio Casale comentou em: 27/02/2014 18:48

 

Trabalho do Prof. José Donizeti e Equipe

 

Caro Sergio.

 

Gostaria que o Prof. Donizeti,comentasse numa próxima oportunidade, o que ele seus menmbros da Equipe encontraram em lavouras com o solo recoberto de matos devidamente manejados.

Abraço, Obrigado.

 

Casale

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Beto Taguchi comentou em: 28/02/2014 00:16

 

mercado

 

fui alertado pelo Marco Jacob, que tenho a felicidade de chamar de amigo, da gravidade da seca, com mercado por volta dos 135 cents per pound. na epoca brinquei que iria comprar puts. e o mercado esta pperto dos 180. unica observacao que faco e que faco e que precisamos prestar atencao na safra dos outros pises.  desde o problema da colombia ,os torradores aprenderam a usar robusta, nao quero briga,mas so lembrando que o mercado eata volatil e que vvendas escalonadas para cima sao a melhor solucao...

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Marco Antonio Jacob comentou em: 28/02/2014 07:53

 

375 milhoes de sacas nos proximos 30 meses

 

Caro amigo Beto ,

Mais bacana que nós sermos amigos , é que nossos Pais eram amigos (são amigos lá no céu) e nossas filhas são amigas , mas vamos ao seu alerta .

Infelizmente ocorreu e ocorre a seca e calor excessivo , consequencia disto , o Brasil reduzirá suas exportações nos proximos 30 meses . Quanto reduzirá , sei dizer , mas não me atrevo, peço ajuda aos UNIVERSITÁRIOS responderem estão questão

Logicamente , para suprir esta lacuna de diminuição de fornecimento , os importadores mundiais deverão buscar em em seus estoques e em outras origens o café necessário , mas quais origens pode suprir a LACUNA BRASILEIRA ?

Estoques nos paises consumidores é pequeno , basta ver os estoques da LIFFE (robustas) evaporarem na ultima temporada , e , os estoques americanos se ararastando , estaveis , porem pequenos , desta vez os cafés velhos certificados vão virar pó , pó de café no coador dos consumidores.

Se formos do lado dos MILDS COFFEE , produzidos na America Central e Perú , eles também estão inaptos para fornecer , pois a ROYA diminui sensivelmente suas produções.

Se olharmos a Colombia , mesmo prometende safra maior , não chega a substituir a quantidade menor produzida de MILDS COFFEE.

Restarão os Robustas  da  Indonesia , Vietnan  , India , Uganda etc.

Indonésia com problemas na produção e aumentando a demanda interna  ( uma população de 200 milhoes de habitantes).

India , com aumento de demanda e leve diminição de produção.

Uganda , não sei dizer nada .

Vietan , produzira grande safra , talvez 28 milhoes de sacas , então a bola da vez será os Vietnamitas a serem cortejados pelo trader internacional.

Resumindo , nos proximos 30 meses , potencialmenet , o mundo vai consumir aproximadamente 375 milhoes de sacas , mas não vai produzir estas 375 milhões de sacas , então restam os estques mundiais na origens  , que sabemos que são pequenos também.

 

 

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