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T Ó P I C O : Entrevista com o criador do adubo Organomineral - Professor Kiehl

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Entrevista com o criador do adubo Organomineral - Professor Kiehl


Autor: Vânia Marques - Folha Agrosul

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Último comentário neste tópico em: 22/03/2016 12:03:09


Vânia Marques - Folha Agrosul comentou em: 10/11/2011 11:52

 

Entrevista com o criador do |adubo Organomineral - Professor Kiehl

 

Adubação Organomineral

Entrevista:  professor Edmar Kiehl, especialista em matéria orgânica e criador do adubo organomineral

Vânia Marques – Folha Agrosul (edição de outubro de 2011)

Aos 94 anos, esbanjando saúde e disposição, o professor Kiehl divide seu tempo entre as viagens que faz à convite das empresas ou produtores,  às leituras e estudos e à venda de seus livros. O sétimo, está na editora para ser lançado em breve. “E este também é sobre matéria orgânica, mas bem especializado”.  Quando chega à Esalq, todos anos, para o curso de atualização para engenheiros agrônomos, ele brinca:  “Está aqui o professor que vai dar o que tem de mais atual e moderno. Tenho 94 anos.”  Finaliza, achando  engraçado, um professor desta idade falar sobre inovação.

No salão do hotel onde estava hospedado, Dr. Kiehl recebeu a Folha Agrosul para esta matéria.

Então, o senhor se formou há 70 anos?

Isso. Me formei em 1941, em agronomia pela Escola Superior Luiz de Queirós (ESALQ). Fui trabalhar no Instituto Agronômico de Campinas, por dois anos. Depois, em Piracicaba  fui convidado para ser professor na ESALQ. Primeiro no Departamento de Química Agrícola, onde eles estudavam adubos. Quando cheguei lá me falaram: olha, aqui já tem um professor estudando adubo nitrogenado, outro estudando o fosfatado, outro o potássico, então, sinto muito mas, para você só sobrou o orgânico. E como quem está entrando, não tem o que reclamar, tem que aceitar, eu peguei o adubo orgânico para estudar.

Aí veio aquela época em que as atenções se voltaram para a adubação orgânica (na década de 60), e eu fui muito procurado. Me empolguei tanto que fui para os Estados Unidos, estudar com o pai da adubação orgânica na América do Norte e me especializei em matéria orgânica. Voltando para o Brasil, durante 10 anos, escrevi uma coluna no Suplemento Agrícola do Estado de São Paulo. Me convidavam para fazer palestras, fiquei muito conhecido. As pessoas perguntavam: mas onde tem um livro que fala disso, o senhor deveria escrever um livro. Aí escrevi o primeiro, o segundo, o terceiro..., e agora o sétimo livro está saindo da editora, esse explica como as propriedades da matéria orgânica são transferidas para o solo. Esse livro é específico sobre a matéria orgânica.

 E como o senhor chegou no organomineral?

Estudando, eu fiquei sabendo que a matéria orgânica potencializava o aproveitamento do nitrogênio pela planta. O fertilizante orgânico se combinava com o fertilizante mineral, e as raízes forneciam mais facilmente para as plantas, aumentava a produção.Os fabricantes de fertilizante orgânico vendiam para o cafezal. Eu dizia a eles: olha, ponha um pouquinho de adubo mineral fosfatado no seu adubo orgânico e diga ao produtor que é especial para o café. Aí, os cafeicultores só queriam aquele adubo especial para o café. Porque o fósforo é responsável pelo florescimento do café e, pela produção, mas, a planta necessita de nitrogênio, fósforo e potássio. Daí, eu dizia, ponha NPK. Não ponha só fósforo não. Eles começaram a colocar e disseram, é um sucesso! Os produtores só querem esta mistura agora. Chamei a mistura de organomineral. Começaram a me cobrar livros que explicassem mais sobre o assunto. Então escrevi o livro Fertilizante Organomineral.

Pesquisa

O Instituto Agronômico de Campinas  fez 10 anos de pesquisa, usando só o orgânico, só o mineral e combinando os dois. A ESALQ também pesquisou por 10 anos. Sempre a mistura superou o uso de qualquer dos dois, sozinho. Então, descobriram o organomineral! Eu cito isso no livro.

Como o adubo orgânico potencializa o mineral?

Porque quando a gente mistura e põe no solo, a matéria orgânica tem uma capacidade de troca de cátions, ela como se fosse um ímã, ela atrai e retém todos os minerais. Nesta situação, libera um hidrogênio e retem o cátion.  A água da chuva passa e não arrasta o fertilizante, que fica retido no solo, disponível para a planta. Então, o adubo mineral, que é solúvel em água, não será levado com a chuva para as camadas mais profundas do solo, ficando longe do alcance das raízes. Com a matéria orgânica, ele permanece ali, na profundidade das raízes da planta.

Onde está mais disseminado o uso do organomineral?

Hoje, no Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, onde estão produzindo muito fertilizante orgânico mineral. Estão vendendo para os países vizinhos, como Paraguai e Uruguai, porque lá não tem. Eles estão usando o organomineral mas, não sabem o que é, sabem apenas que está produzindo mais.

Com este crescimento no preparo e uso e do organomineral, como fica o controle da qualidade do adubo? 

É, o organomineral já é legalizado e fiscalizado, agora tem que fazer direitinho. Não pode fazer um adubo fora da lei. Em 1982,  era ministro da agricultura, o Pedro Simon. Fomos, eu e um grupo de produtores para Brasília. Eu preparei uma exposição sobre o adubo e fomos. Mas, o ministro recebeu só a mim. Aí eu expliquei tudo sobre o adubo, o ministro entendeu. Aí, os produtores me abraçaram..., valeu a minha viagem para Brasília! E está aí o organomineral.

Uma empresa foi multada pelo governo, chegaram lá tinha um adubo orgânico que estava azedo, e eles multaram.

Quais são os parâmetros da lei?

Não pode ter menos de 50% de matéria orgânica. Geralmente tem mais porque o NPK diz 500kg, 400kg por tonelada, então dá 400kg mas faz 600kg de matéria orgânica.

A utilização da mistura torna a adubação mais trabalhosa. O que compensa o produtor no uso do organomineral?

O orgânico é mais barato que o mineral. Então, o mineral custa dez vezes mais do que o orgânico. Eu ponho R$600,00 de um adubo que custa R$1.200,00 e ponho R$60,00 de um que vale R$120,00, então eu uso a metade de cada um, misturo e faz o efeito do integral. A gente fala em potencializar, mas o que pesa no bolso do agricultor é o dinheiro. O lado econômico é inegável. Usa a mistura, aí vai colher, vai ter a surpresa: a mistura rendeu mais e custou a metade do preço. Sem dúvida alguma, fazer adubação mineral, é muito mais rápido, muito mais cômodo, tem máquinas. Então é mais caro mas é muito mais simples. Mas para o pequeno agricultor, o médio agricultor que tem menos capital e sente que aquele adubo é melhor, o adubo organomineral é excelente, não tem coisa melhor.

Tem aumentado a procura por informação sobre o organomineral?

Tem sim. Eu recebo na minha casa, muitas  firmas que produzem e eles vão lá conversar comigo, trocar idéias. Quando vão lá eu ofereço meus livros, vendo meus livros.

O senhor é mais procurado por empresas, agrônomos ou produtores?

Mais são empresas mesmo.

Existe uma fonte de matéria orgânica que seja mais indicada?

O importante é que a matéria orgânica seja bem decomposta. A matéria orgânica crua não tem grandes efeitos no solo. Ela tem ir lá no solo, ser metabolizada para se transformar no húmus. O húmus é o segredo da matéria orgânica.Tem que fazer uma pilha, deixar esquentar. Os micróbios decompondo a matéria orgânica, gera um calor de 60°. Não é preciso ter um termômetro. Eu digo, ponha uma barra de ferro lá dentro, tira e apalpa. Não conseguem segurar. Se está quente, está decompondo. Só que precisa revolver esta leira, para aquecer todos os lados. Durante dez anos nós fizemos isso na prefeitura de São Paulo, produzindo com o lixo urbano.

Se o produtor se decidir, fazer o organomineral, enquanto o terreno está vazio, ele planta uma leguminosa. A planta leguminosa é uma planta para crescer e se incorporar no terreno como adubo. Então ele planta aquela leguminosa, vai colher e vai fazer o adubo orgânico. O mineral ele vai ter que comprar. É uma maneira de duplificar o aproveitamento do mineral.

É uma alternativa para as prefeituras então!

Eu propus e a prefeitura fez o lixo seletivo. Mas é uma maravilha. Se fizer isso na cidade: separar lixo seco do lixo molhado. O lixo molhado dá um adubo extraordinário.

Fale sobre as suas palestras

Eu sou muito procurado para fazer palestra, eles gostam da minha palestra. Na escola (ESALQ), também todo ano eles dão um curso de atualização para engenheiros agrônomos formados há muitos anos, então cada professor, dá uma aula de atualização. Eu sempre sou convidado para falar de matéria orgânica. Então, eu falo que vou falar o que tem de mais moderno, atual e por fim, falo a minha idade, noventa e quatro anos... Estou com 94. Então eu mostro os meus livros e falo que estão todos atualizados. Minha mulher está sentada lá no fundo, quem quiser comprar livro, vai lá e fala com ela. É assim minha palestra.

Como é a sua rotina hoje?

Ela tem uma floricultura com os filhos, então levantamos e vamos para a floricultura. “Segunda, quarta e sexta eu faço uma hora de ginástica numa academia. Apesar da minha idade eu faço todos aqueles aparelhos. Sábado é sagrado para nós, vamos (ele e a esposa) para o baile. Gosto de dançar. Lá na floricultura eu levo meus livros, ligo o computador e fico estudando. Acabei de escrever outro livro. E assim tenho vivido.

O senhor se sente, hoje, realizado?Como que é para o senhor, visitar uma propriedade e ver o que eles estão fazendo lá?

Eu sempre fico satisfeito, orgulhoso no meu íntimo de saber que afinal, foi uma coisa criada por mim. Foram anos de experiência, vivência... Vem o agricultor e diz: “olha eu fiz, deu certo, não vou deixar de misturar”. Ou então: “Eu vendi para o agricultor e agora ele só quer esse adubo.” Eu sinto que sou realizado sim. O diretor da escola mandou um diploma grande para mim, “membro benemérito”. Pus num quadro lá na minha parede. Quando eu fico sabendo do produtor, pergunto “você faz adubo orgânico mineral? Você mistura?” E ele diz; “Sim, eu misturo sim.”  É uma satisfação íntima. Quem não tem vaidade, né? Quem diz que não tem está mentindo”.

 Afinal, o senhor é o pai do organomineral.

É. Eu me julguei o pai porque eu fiz ele, vi ele crescer.

 

 

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