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T Ó P I C O : Crise climática pressiona setor de alimentação e produtores aceleram transição para sistemas mais resilientes

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Crise climática pressiona setor de alimentação e produtores aceleram transição para sistemas mais resilientes


Autor: Leonardo Assad Aoun

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Último comentário neste tópico em: 27/01/2026 11:57:23


Leonardo Assad Aoun comentou em: 27/01/2026 12:21

 

Crise climática pressiona setor de alimentação e produtores aceleram transição para sistemas mais resilientes

 

Sob pressão de secas, calor extremo e perdas, a produção de leite, café e cacau tem apostado na adoção de tecnologias e práticas regenerativas para manter produtividade e enfrentar um clima cada vez mais instável

Por Camila Azevedo, de Belém, para Um Só Planeta

Produção de café.

Produção de café. Foto - Getty Images/Yunaidi Joepoet

crise climática, causada principalmente pela queima de combustíveis fósseis, deixou de ser uma previsão distante e passou a ditar, em ritmo acelerado, o futuro da produção de alimentos no Brasil. Em um país onde o agronegócio responde por cerca de 24% do PIB e sustenta exportações superiores a US$ 166 bilhões anuais, de acordo com o Ministério da Agricultura, a pressão das secas prolongadas, das ondas de calor, das chuvas mal distribuídas e da instabilidade dos ciclos produtivos coloca em risco muito mais do que colheitas: ameaça a segurança alimentar, a renda de milhares de famílias e a própria vitalidade das cadeias agropecuárias.

Nos últimos dez anos, os prejuízos econômicos associados a eventos climáticos extremos no Brasil ultrapassaram R$ 300 bilhões, segundo dados da Confederação Nacional de Municípios. Na agropecuária, esses impactos chegam de forma desigual e intensa. A produção de leite caiu em várias regiões no auge da crise hídrica de 2021; a estiagem no Sul afetou severamente soja e milho; e, na Amazônia e no Espírito Santo, culturas sensíveis como cacau e café experimentaram desafios inéditos.

Ao mesmo tempo, cresce um movimento de adaptação liderado pelos próprios produtores e impulsionado por grandes empresas do setor alimentício. É uma resposta que combina tecnologia, manejo regenerativo, inovação local e mudanças profundas na forma de ocupar o solo. O resultado é uma transformação que, quando funciona, beneficia toda a cadeia: do campo ao consumidor.

Embora o Brasil seja uma potência agroambiental, a agropecuária ainda representa cerca de 28% das emissões nacionais de gases de efeito estufa, de acordo com relatórios do Observatório do Clima, principalmente devido ao metano entérico e às emissões no manejo do solo. Por isso, iniciativas que incorporam agricultura regenerativa, monitoramento digital e redução de insumos químicos são vistas como caminho essencial para conciliar produtividade e clima.

Essa é a lógica que orienta o Projeto Flora, da Danone, hoje considerado referência para cadeias leiteiras de baixa emissão. Em cinco anos, o Flora conseguiu reduzir 47% das emissões de CO₂, 42% do metano equivalente e aumentar em 37% a renda líquida do produtor. A produtividade por animal cresceu 18%, sem que fosse necessário ampliar o rebanho — um dado decisivo em um setor que enfrenta margens estreitas e forte vulnerabilidade climática.

Para Larissa Moré, head de Relações com Governo da Danone, o ponto central é o engajamento dos produtores. “Quando eles percebem que determinada prática é realmente benéfica para eles, passam a buscar essas soluções por conta própria. O produtor está no centro de tudo. Se ele não embarcar, o projeto não avança. Mas quando essa chave vira, os resultados aparecem”, afirma.

Gado leiteiro. — Foto: Jornada Flora / Divulgação: Danone Brasil

Gado leiteiro. — Foto: Jornada Flora / Divulgação: Danone Brasil

A sensibilidade da cadeia do leite às variações do clima sempre foi um desafio. Ondas de calor reduzem a produção; falta de água compromete o bem-estar animal; pastagens degradadas ampliam emissões. Por isso, o Flora evoluiu de um programa de apoio básico para um modelo de transformação profunda, que vai desde a compra coletiva de insumos até tecnologias de monitoramento de saúde do rebanho com wearables - equipamentos vestíveis - que identificam inflamações precocemente, reduzindo o uso de antibióticos.

Entre os avanços recentes está ainda a expansão do uso de energia solar nas propriedades, permitindo que pequenos produtores reduzam custos e aumentem a previsibilidade operacional — um fator cada vez mais determinante em um cenário de clima instável. “Para nós, sustentabilidade é estratégia de negócios. Ela precisa estar integrada a tudo o que pensamos e ao conceito de cada projeto em que trabalhamos. Temos muitas iniciativas em andamento para dar continuidade a esse caminho”, diz Larissa.

“Inicialmente, olhamos para as necessidades reais do produtor — especialmente as dificuldades de adquirir matéria-prima e insumos essenciais para a fazenda. Ele começou ali, focado em apoiar o produtor diretamente. Mas, com o tempo, ficou claro que estávamos diante de algo maior: um projeto de sustentabilidade amplo, estruturado e estratégico. Essa virada aconteceu de forma natural, quando entendemos o impacto potencial”, completa.

Café e cacau passam por adaptações constantes

Produtor de cacau segurando fruto nas mãos — Foto: Getty Images

Produtor de cacau segurando fruto nas mãos — Foto: Getty Images

No café e no cacau, a mudança climática altera diretamente o comportamento das plantas. No Espírito Santo, a produtora Kaézia Bianchini, de Aracruz, gerencia, junto à família, uma propriedade de 100 hectares produtivos que combina irrigação automatizada, energia renovável, técnicas de fertirrigação e um viveiro com clones adaptados para maior resistência.

A tecnologia ajuda, mas a escala traz obstáculos. “O principal desafio é manter a padronização da primeira à última saca da colheita, mesmo com a variação climática e a complexidade do manejo em grande área. E, para isso, preciso de gente qualificada”, afirma. Ela estruturou trilhas de capacitação interna que começam com noções básicas de manejo e evoluem para cursos específicos sobre tratores, herbicidas, secadores e segurança no campo. A propriedade hoje tem 27 funcionários, todos treinados desde o primeiro nível.

“Nós temos hoje uma propriedade sustentável. Trabalhamos com agricultura de sustentabilidade, aplicando práticas de manejo de solo, utilização de biológicos, fontes renováveis de energia e irrigação automatizada, com a qual a gente consegue ter um manejo adequado e inteligente da água. Utilizamos fertirrigação, então desse jeito conseguimos fazer o manejo do adubo e do fertilizante aplicado diretamente na planta, sem desgaste e sem estresse. E, com o auxílio da tecnologia, tudo isso fica ainda mais eficiente”, explica Kaézia.

No cacau da Amazônia, as mudanças climáticas têm provocado efeitos inéditos e preocupantes. O produtor Pedro Silva, de Medicilândia, no Pará, viu algo jamais registrado na cacauicultura brasileira: a germinação precoce dentro do cacabaço [fruto do cacaueiro ainda inteiro], fenômeno provocado por estresse hídrico extremo. A semente, ao começar a brotar antes mesmo da colheita, perde peso, qualidade e valor de mercado. Em 2023, comenta Pedro, “os números eram baixíssimos justamente por causa da germinação. A planta, muito estressada e sem água, não conseguia desenvolver grãos de qualidade”.

A adaptação exigiu respostas rápidas: irrigação automatizada, compostagem de casca para restaurar o solo, introdução de biológicos e uso de drones de pulverização de alta precisão, uma tecnologia que substituiu investimentos muito maiores em tratores e reduziu drasticamente o uso de combustíveis fósseis.

A casca do cacau, antes resíduo sem valor, transformou-se na base do composto que hoje permite reduzir quase a zero o uso de fertilizantes químicos. A meta é chegar a 100 toneladas de composto produzido dentro da própria fazenda, fechando um ciclo regenerativo raro na cadeia.

Mas Pedro reconhece que, apesar da inovação, existe um gargalo estrutural: o crédito. “Se estamos falando de sustentabilidade, o mercado precisa oferecer soluções sustentáveis que também sejam acessíveis. Os biológicos chegam a ser 50% mais caros que os químicos. E as linhas de financiamento para cacau praticamente não existem. Falta política concreta que incentive o produtor a ser eficiente”, afirma.

Cadeias robustas exigem ciência e rastreabilidade

Mudas de pé de café. — Foto: Divulgação/Nescafé® Plan

Mudas de pé de café. — Foto: Divulgação/Nescafé® Plan

Em três cadeias — leite, cacau e café —, empresas têm se apoiado em pesquisa e rastreabilidade para garantir resiliência. A Nestlé, que atua com mais de 3.800 produtores de café e mais de 6.500 fazendas em programas agropecuários, investe em solo como base da agricultura regenerativa. Em alguns casos, o impacto da cobertura vegetal do solo pode ser sentido com as mãos: temperaturas mais baixas, maior retenção de água e biodiversidade ativa transformam a produtividade.

“A diferença entre um solo regenerativo e um solo apenas nutricional é gritante”, afirma Bárbara Velo, gerente ESG de cafés da Nestlé. “Se o solo é saudável, temos eficiência, menor emissão e maior rentabilidade.” No leite, o programa Nature for Milk introduziu monitoramento contínuo de bem-estar animal com sensores que alertam sobre estresse, doenças ou mudanças bruscas de comportamento.

No cacau, explica o gerente de ESG Luis Collaço, todo o fruto usado pela empresa é rastreado. Produtores que adotam boas práticas recebem um pagamento adicional, estimulando manejo sustentável e conformidade socioambiental. “A dimensão social também é fundamental: pagamos um valor adicional ao produtor pela amêndoa sustentável de cacau — um bônus que incentiva boas práticas. E o resultado é simples: mais inteligência, mais cacau”, diz.

Fonte: Um Só Planeta

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