T Ó P I C O : “NADA DO QUE FOI SERÁ DE NOVO DO JEITO DE QUE JÁ FOI UM DIA*” | POR CELSO VEGRO
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“NADA DO QUE FOI SERÁ DE NOVO DO JEITO DE QUE JÁ FOI UM DIA*” | POR CELSO VEGRO
Autor: Leonardo Assad Aoun
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Último comentário neste tópico em: 24/02/2026 16:14:55
Leonardo Assad Aoun comentou em: 24/02/2026 11:20
“NADA DO QUE FOI SERÁ DE NOVO DO JEITO DE QUE JÁ FOI UM DIA*” | POR CELSO VEGRO
“NADA DO QUE FOI SERÁ DE NOVO DO JEITO DE QUE JÁ FOI UM DIA*”
Álbum o Último Romântico II
Lulu Santos
A pandemia produziu um novo contexto para a experiência humana na atual quadra histórica. O ambiente das incertezas se firmou enquanto alicerce das expectativas que foram recentemente radicalizadas pela gestão previsivelmente imprevisível do mandatário estadunidense. Francamente empenhado no desmantelamento do sistema de governança global, construído pelo próprio EUA no pós-guerra, o ambiente para a tomada de decisões econômicas tornou-se extremamente complexo.
Ao final de 2025, foi publicado pela Casa Branca o documento: National Security Strategy of USA, que dentro de suas premissas regurgita a doutrina Monroe1 em que a América Latina constitui um território “exclusivos” dos interesses estadunidenses. O esforço explícito é o de deslocar a presença chinesa nos países latino americanos, priorizando seus interesses, mas talvez nem tanto dos países abaixo do Rio Grande ou Rio Bravo a depender do ponto de vista.
A estratégia já rendeu frutos para os casos do Panamá (retomada da gestão púbica sobre o canal cancelando a concessão que pertencia a empresa de Hong Kong), bloqueio das remessas de petróleo venezuelano para a China e para Cuba e, por fim, pacote financeiro para a Argentina com exclusividade para a exploração das reservas de lítio do país. Outras intervenções virão sobretudo nas eleições da Colômbia2 e do Brasil, por acaso os dois maiores países produtores de café arábica do mundo.
Pois não foi o café um dos produtos3 que levou ao mandatário estadunidense a rever o tarifaço impetrado ao Brasil ao final de julho de 2025. A elevação de preços no varejo do produto no mercado dos EUA, trouxe forte indignação entre seu eleitorado, forçando-o a excluir o produto da lista daqueles taxados em 50% para ingresso no mercado do país5.
Não poderia haver momento mais inoportuno para o mandatário estadunidense impor tarifa ao café brasileiro. Após seguidos anos de produção mundial abaixo das expectativas, associado ao acelerado consumo de estoques iniciou-se, ao último trimestre de 2024, escalada nas cotações do café no mercado internacional, que se manteve até fev./2026, quando após quatro safras consecutivas do Brasil, previu-se um volume de colheita próximo ao recorde registrado na safra de 2020/21.
A retirada das tarifas imposta pelo presidente americano, não promoverá um retorno ao status quo anterior de funcionamento do mercado. Ainda que tenha havido perdas econômicas devido à restrição aos embarques para aquele mercado, houve diversificação dos clientes para os produtos brasileiros, ou seja, um rearranjo dos destinos da oferta que agora passará a competir pelo suprimento nacional com mercados tradicionais.
A commodity café possui natureza essencialmente volátil. A espúria intervenção no mercado, afetando sua principal fonte de suprimento global, intensificou os movimentos especulativos, trazendo mais imprevisibilidade para a formação dos preços do produto. As cotações na Bolsa de Nova York superaram os US$¢400,00/lbp, elevando os preços no mercado interno a patamares acima dos R$2.500,00/sc. A transferência para os preços no varejo foi imediata com drásticas repercussões sobre a demanda.
Assim, dados recentes da CONAB6, indicaram que a colheita para o ano comercial 2026/27 poderá alcançar 66,19 milhões de sacas, representando em incremento de 17,1% frente a safra anterior, distribuídas em 44,10 milhões de sc de arábica e 22,09 milhões de sacas de conilon + robusta. Tais resultados estão alinhados com as mais destacadas previsões das principais companhias exportadoras como: Stonex (70,70 msc) e ItauBBA (69,30 msc), para mencionar apenas duas das empresas especializadas em monitorar o andamento da safra brasileira.
Apesar do impacto que essa quantidade colhida venha tendo na formação internacional dos preços, o resultado mais relevante dessa campanha de previsão de safra da CONAB consiste na expansão de área mensurada em 4,1%. Aquilo que pode parecer pouco consiste numa área adicional de 76 mil ha! Considerando o patamar tecnológico em que as novas lavouras são implantadas, podemos imaginar médias de produtividade relativamente conservadora em torno de 35sc/ha, significa um adicional ao total da safra de 2,6 milhões de sacas.
Ademais, por imposição da legislação europeia, a cafeicultura brasileira já se apropriou plenamente dos mecanismos de rastreabilidade e certificação, que aliada ao empreendedorismo característico que permeia a realidade atual da atividade agropecuária do país e, ainda, sua incessante busca por tecnologias que mesclam produtividade com qualidade, confere patamar de fortalecimento da atividade, promovendo tanto a confiança internacional como a capacidade brasileira de suprir em suas especificidades a demanda internacional e nacional.
Com essa expansão do plantio se forma, no Brasil, uma espécie de buffer (colchão) contra as variações cíclicas característica do mercado das commodities, sendo o café uma que mais intensamente exibe esse comportamento. Diante das mudanças climáticas (fenômeno já contratado) é importante que se ampliem as áreas de produção no país para que as periódicas perdas registradas nos últimos anos (tanto aqui como entre concorrentes), possa ser mitigada pela expectativa de colheita em novas áreas produtivas.
A persistente elevação do consumo mundial, associado a tênue recuperação de estoques que se antecipou a partir do aumento da oferta brasileira, não trará alívio ao mercado, ainda que, momentaneamente, os preços tenham exibido fortes baixas ao longo de fev./2026. Distúrbios climáticos, decisões de política econômica erráticas e ilegais, escalada de conflitos geopolíticos e comerciais; enfraquecimento da moeda referência para o comércio internacional e de entesouramento privado, deixam o mercado em estado de permanente estresse, significando na prática incremento da volatilidade para as cotações.
A revogação das tarifas decretado pela suprema corte estadunidense com imediata imposição de tarifa global de 15%, poderá beneficiar as exportações brasileiras para os EUA. Sob clima de imprevisibilidade, instabilidade e desconfiança, mais café o mercado demandará, pois diante de tantos estresses, surge o café como o elixir capaz de descomprimir esse momento de tantas incertezas.
E a música continua com a estrofe:
“Tudo que se vê não é igual ao que a gente viu a um segundo”.
Celso Luis Rodrigues Vegro
Eng. Agr., MS, Pesquisador Científico do IEA
* artigo preparado sob inspiração de recentes análises da estudiosa Mônica de Bolle em seu canal para os assinantes no Substack.
1 A Doutrina Monroe tinha como um dos seus preceitos base o slogan “América para os Americanos”.
2 Pouco após o sequestro do mandatário da Venezuela o ordenador da ação militar na qual tombaram 100 militares daquele país, insinuou que a Colômbia poderia ser o próximo a experimentar algo similar como suposto combate ao narcoterrorismo.
3 A carne, especialmente aquela empregada na produção de hambúrgueres, acompanhou o café na elevação dos preços no mercado estadunidense.
4 Em 20/02/2026 a Suprema Corte Estadunidense impugnou a imposição de tarifas do governo Trump
5 Todavia, permanece o café solúvel brasileiro no rol de produtos que ainda permanecem sob alíquota de 50%, havendo movimentação diplomática brasileira para exclusão do produto do tarifaço. Em 20/02/2026, os juízes da Suprema Corte Estadunidense, finalizaram seus votos decidindo a maioria pela revogação da imposição de tarifas, concluindo que o presidente Trump excedeu sua autoridade ao invocar a lei de emergência econômica.
6 Disponível em https://www.gov.br/conab/pt-br/atuacao/informacoes-agropecuarias/safras/safra-de-cafe/1o-levantamento-de-cafe-safra-2026/1o-levantamento-de-cafe-safra-2026 Acesso em 20/02/2026
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