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T Ó P I C O : 23 Indicações Geográficas de café no Brasil: por que, na prática, elas ainda não funcionam? | Por Prof. Paulo Henrique Leme

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23 Indicações Geográficas de café no Brasil: por que, na prática, elas ainda não funcionam? | Por Prof. Paulo Henrique Leme


Autor: Leonardo Assad Aoun

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Último comentário neste tópico em: 01/04/2026 17:50:15


Leonardo Assad Aoun comentou em: 01/04/2026 18:13

 

23 Indicações Geográficas de café no Brasil: por que, na prática, elas ainda não funcionam? | Por Prof. Paulo Henrique Leme

 

23 Indicações Geográficas de café no Brasil: por que, na prática, elas ainda não funcionam?

Prof. Paulo Henrique Leme

Abril 2026

Diretor de Inovação e Tecnologia da UFLA
Pesquisador do Agritech/UFLA

Quando olhamos para o mapa das indicações geográficas de café no Brasil, o primeiro impulso é de orgulho. E ele é justo. O país chegou a 23 IGs de café reconhecidas pelo INPI até março de 2026, o maior conjunto entre os produtos brasileiros protegidos por esse instrumento. Isso, por si só, revela um movimento importante de organização territorial, mobilização institucional e construção de identidade em torno da cafeicultura brasileira.

Ao longo de quase 25 anos, as indicações geográficas ajudaram a dar nome, visibilidade e legitimidade a regiões produtoras. Foram importantes para reconhecer histórias, organizar narrativas territoriais, estimular associações, fortalecer lideranças locais e colocar novas origens no radar do mercado. Em muitos casos, a IG foi o primeiro grande ativo institucional de uma região. Ela ajudou a transformar território em discurso, tradição em argumento e procedência em promessa de valor.

Mas é justamente aqui que entra a pergunta que incomoda e que precisa ser feita: se temos 23 indicações geográficas de café, por que elas, em sua grande maioria, ainda funcionam tão pouco na prática?

Eu diria que o problema não está no instrumento em si, nem na importância histórica das IGs. O problema está no fato de que, no Brasil, grande parte desse processo foi construído muito mais como reconhecimento institucional do que como estratégia efetiva de mercado. Houve, sim, um esforço relevante de estruturação dos territórios. Mas, em muitos casos, esse esforço ocorreu de cima para baixo, muito apoiado por instituições públicas, como Sebrae, Ministérios, Secretarias de Agricultura, universidades, agentes de desenvolvimento e por organizações de apoio. Isso foi fundamental para fazer o processo acontecer. Mas não bastou para fazer o mercado responder.

Porque uma indicação geográfica não vive apenas de reconhecimento jurídico. Ela depende de governança, de branding, de gestão de reputação, de coordenação entre atores, de padronização, de presença comercial e, principalmente, de canais de mercado capazes de transformar origem em valor percebido e valor apropriado. Sem isso, a IG vira mais uma “certificação simbólica” do que uma ferramenta econômica concreta.

Esse talvez seja o ponto mais importante deste debate: o reconhecimento de uma indicação geográfica não significa, por si só, aumento de preço para o produtor. Não significa prêmio automático. Não significa acesso garantido a mercados melhores. Não significa, automaticamente, uma nova estrutura de comercialização para os produtores da região. Entre o reconhecimento formal e a valorização real existe um caminho longo, e é justamente na construção deste caminho que a maior parte das IGs brasileiras de café ainda apresenta fragilidade.

Na prática, as indicações geográficas de café no Brasil não conseguiram ocupar um espaço institucional forte dentro das estruturas tradicionais de comercialização, nem no mercado interno, nem no mercado externo. Não conseguiram, de forma ampla, fazer seus nomes geográficos, suas marcas e seus selos aparecerem com força nas principais marcas de café torrado e moído vendidas no país. E também não conseguiram, salvo exceções, abrir canais internacionais consistentes nos quais a origem protegida apareça como ativo central da negociação.

Isso não significa dizer que não houve avanços. Houve. Mas foram avanços pontuais, muito dependentes de apoio institucional, de projetos de promoção, de financiamento, de cooperativas fortes, de lideranças organizadas e de uma capacidade local de transformar o reconhecimento da região em estratégia coletiva. Quando alguma IG funcionou melhor, ela não funcionou sozinha. Funcionou porque havia, em torno dela, um arranjo territorial mais maduro.

E há um ponto adicional que ajuda a explicar por que tantas origens reconhecidas avançaram no plano simbólico, mas ainda geraram pouco efeito econômico distribuído. Em muitos casos, falta às origens brasileiras uma inserção institucional e mercadológica mais robusta, capaz de fazer com que a agregação de valor percorra a cadeia e chegue, de fato, ao produtor. Sem essas mediações, a origem pode até ganhar visibilidade, mas o valor tende a se concentrar em poucos agentes, sem se transformar em benefício econômico distribuído dentro do território. A IG aparece, a marca territorial circula, o discurso se fortalece, mas a valorização não necessariamente alcança quem produz.

E aqui aparece um paradoxo muito interessante. Enquanto as indicações geográficas avançaram em número, o mercado de cafés especiais e o de cafés certificados sustentáveis avançaram muito mais em reconhecimento comercial. Nos últimos 25 anos, esses segmentos ganharam espaço, reputação e capacidade de acessar compradores nacionais e internacionais. O próprio Cup of Excellence, que celebrou 25 anos em 2024, é parte importante dessa trajetória e foi apontado em pesquisa acadêmica como um dos mecanismos que contribuíram para a expansão do mercado brasileiro e global de cafés especiais¹.

Ou seja, o mercado foi capaz de reconhecer e remunerar qualidade, desempenho em concursos, sustentabilidade, rastreabilidade e diferenciação individual ou de pequenos grupos. O que ele não conseguiu fazer, na mesma intensidade, foi reconhecer a origem coletiva como um ativo suficientemente forte para gerar valor distribuído dentro das regiões. Um movimento que funcionou com nossos concorrentes da América.

Essa comparação é importante porque mostra que o problema das IGs não é falta de mercado. O mercado existe. O Brasil continua sendo uma potência cafeeira, com forte presença exportadora e grande mercado interno. Em 2025, o país exportou cerca de 40 milhões de sacas, com receita recorde de US$ 15,6 bilhões, enquanto o consumo interno ficou em 21,4 milhões de sacas e o faturamento da indústria de café torrado alcançou R$ 46,24 bilhões. Estamos falando, portanto, de uma cadeia enorme, dinâmica e altamente profissionalizada.

Então por que o cafés de nossas IGs não capturam esse valor?

Porque, na maior parte dos casos, elas não conseguiram resolver os elementos que o mercado efetivamente enxerga quando compra. O mercado compra consistência, reputação, volume adequado, narrativa clara, padrão reconhecível, confiança e canal. Em muitos territórios, a IG foi construída como promessa de diferenciação sem que essa promessa fosse totalmente sustentada por uma estratégia comercial robusta.

Há ainda um problema delicado, mas necessário de ser dito: em alguns casos, as indicações geográficas definiram padrões de qualidade mais aspiracionais do que reais. Criaram uma narrativa institucional de excelência que nem sempre encontra correspondência concreta na percepção dos compradores. E, quando isso acontece, surge uma desconexão perigosa entre branding (construção de merca) e produto. O território comunica algo que a xícara, o lote ou a recorrência comercial não conseguem confirmar.

Esse é um ponto fraco importante. A origem, por si só, não basta. O selo, por si só, não basta. A narrativa territorial, por si só, não basta. O que gera valor é a convergência entre origem reconhecida, qualidade percebida, marca bem construída e mercado preparado para absorver essa proposta. Quando o branding não encontra qualidade, o produto não consegue acessar o mercado. E, quando a qualidade existe, mas não encontra uma estratégia coletiva de reputação e comercialização, o valor fica capturado por poucos atores, e não pela região.

Também é preciso reconhecer que as origens brasileiras estão em estágios muito diferentes de maturação. Algumas regiões já contam com governanças mais estruturadas, lideranças ativas, maior capacidade de coordenação, produtores mais organizados e melhor inserção comercial. Outras ainda operam com baixa articulação institucional, grande heterogeneidade entre produtores, frágil identidade comercial e pouca capacidade de ação coletiva. Isso significa que não existe uma agenda única para todas as IGs. Cada território parte de condições distintas, com diferentes formas de governança, diferentes perfis de produtores e diferentes modos de trabalho e ação. Tratar todas as origens como se estivessem no mesmo ponto de desenvolvimento é um erro analítico e, muitas vezes, também um erro estratégico.

Por isso, se as indicações geográficas quiserem operar de fato como alavancas de mercado, elas precisam reconhecer a dinâmica dos cafés especiais dentro dos territórios e valorizar os produtores que buscam essa diferenciação. Em muitas regiões, são justamente esses produtores que ajudam a construir imagem, atrair compradores, testar padrões de reputação e demonstrar ao mercado que a origem é mais do que um nome geográfico. São inovadores em sua essência. Quando a IG ignora essa vanguarda produtiva, ou quando tenta se manter apartada dela, perde um de seus principais motores de legitimidade comercial.

Ao mesmo tempo, há um risco quando a busca por um padrão de qualidade muito alto se distancia da realidade do território. Nesse caso, a IG pode se tornar excludente, afastando produtores em vez de mobilizá-los. Pode criar critérios aspiracionais que funcionam bem no discurso, mas pouco aderem à base produtiva da região. O desafio não é construir uma narrativa de excelência desconectada do território, mas definir critérios capazes de elevar a reputação da origem sem romper seu vínculo com a realidade social e produtiva local. Uma origem com indicação geográfica que não consegue incluir, orientar e organizar seus próprios produtores corre o risco de se tornar mais um selo de distinção do que uma plataforma efetiva de desenvolvimento territorial.

Talvez por isso alguns produtores, algumas fazendas e algumas associações tenham conseguido acessar o mercado de especiais com mais sucesso do que muitas origens inteiras. Eles trabalharam melhor sua presença em concursos, em eventos, em feiras, em projetos de promoção e em construção de marca. Tiveram apoio do Estado, de agências de fomento, de cooperativas, de exportadores e de iniciativas que ajudaram a traduzir qualidade em valor percebido. Em outras palavras: encontraram mediações de mercado que muitas origens ainda não conseguiram construir.

É por isso que o marketing de origem precisa deixar de ser acessório e passar a ser o carro-chefe da valorização territorial. E isso significa trabalhar a origem em toda a sua densidade: o produto, a história, as pessoas, a paisagem, a cultura, a memória, o turismo, a gastronomia, a hospitalidade e os canais de mercado capazes de transformar esses atributos em desejo e reconhecimento junto ao consumidor. Uma origem não se valoriza apenas com regulamento de uso ou com reconhecimento formal. Ela se valoriza quando consegue construir sentido, presença e preferência. E isso exige estratégia de comunicação, ativação comercial e inteligência de mercado.

Nesse sentido, as parcerias institucionais continuam sendo fundamentais, mas elas precisam estar cada vez mais articuladas com o mercado. Não basta a cooperação entre entidades de apoio, universidades e organizações de desenvolvimento, embora ela siga sendo essencial. Também é preciso aprofundar as parcerias com indústrias regionais, torrefadores, cafeterias, varejo, distribuidores e outros agentes da ponta. Porque, para que a marca territorial seja reconhecida, ela precisa circular. Precisa aparecer nas embalagens, nas gôndolas, nas cafeterias, nas narrativas de consumo e nos ambientes em que o consumidor faz suas escolhas. Em última instância, a força de uma origem depende também de sua capacidade de chegar ao consumidor final.

Por isso, o futuro das IGs de café no Brasil depende menos de novos registros e mais de uma nova agenda para as regiões já reconhecidas. O desafio agora é outro. É fortalecer governanças reais, e não apenas formais. É profissionalizar a gestão das marcas territoriais. É criar regras de uso mais efetivas, mecanismos de controle, comunicação consistente e, principalmente, canais comerciais dedicados. É aproximar torrefadores, cafeterias, exportadores, varejo e compradores institucionais dessas origens. É fazer com que a IG deixe de ser apenas uma chancela jurídica e passe a operar como ativo econômico do território.

As 23 indicações geográficas de café do Brasil são uma conquista importante. Mas elas ainda não cumpriram, na maior parte dos casos, a promessa de transformar reconhecimento territorial em valorização consistente para os produtores. O Brasil conseguiu construir o mapa. O que ainda falta, em muitos territórios, é construir o mercado.

No fim das contas, a pergunta já não é quantas IGs de café o Brasil tem. A pergunta correta é: o que estamos fazendo para que essas regiões sejam, de fato, compradas, reconhecidas, desejadas e valorizadas? Porque uma indicação geográfica só se completa quando transforma território em reputação, reputação em mercado e mercado em futuro para quem produz.

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