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T Ó P I C O : Direcionamento de plantio, exposição solar e suas implicações no cafeeiro

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Criado em: 28/06/2006

Tipo: Tema

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Direcionamento de plantio, exposição solar e suas implicações no cafeeiro


Autor: Leonardo Assad Aoun

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Último comentário neste tópico em: 08/04/2020 11:39:47


Leonardo Assad Aoun comentou em: 08/04/2020 10:42

 

Direcionamento de plantio, exposição solar e suas implicações no cafeeiro

 

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Felipe Santinato; José Braz Matiello; Roberto Santinat e Victor Afonso Reis Gonçalves

Acesse: www.santinatocafes.com

Dúvidas: fpsantinato@hotmail.com e 19-982447600 (whatsap)

Considerações iniciais:       

O cafeeiro é altamente influenciado pela exposição do sol. Tanto a luz quanto a temperatura interferem em: diferenciação de gemas, velocidade de amadurecimento de frutos, crescimento vegetativo, incidência de doenças, infestação de pragas e outras injúrias, tais como escaldadura nas folhas e frutos (sol) e mofamento de frutos (sombra).

            O sol nasce no leste e se põe no oeste, mas ao longo do ano ele se desloca. Seu direcionamento também é influenciado pela latitude em que se encontra a lavoura em questão. Lembrando que devido a estas oscilações o sentido de direcionamento de plantio nunca será sempre favorável ao deslocamento do Sol. Como mencionaremos ao longo do texto deve-se optar pelo direcionamento de plantio que coincida, por mais tempo no ano, com o direcionamento escolhido, em função de uma série de particularidades.

Em direcionamentos favoráveis ao deslocamento do sol, as linhas do cafeeiro, se influenciam pela exposição solar de forma mais semelhante em suas duas faces A e B. Em direcionamentos distintos pode ocorrer o maior ou menor exposição solar em determinada face A e B. A isto se da o nome de face do Sol da Tarde, face do Sol da Manhã, Lado do Sol, Lado da Sombra….Muitas “nomenclaturas”. Aqui neste texto pretendemos padronizar para facilitar as interpretações. Dessa forma existem:

Face do Sol da manhã: Face que recebe os primeiros raios solares pela manhã. Consequentemente a face oposta a esta recebe os raios solares somente horas depois, formando uma sombra por mais tempo. Esta face oposta também recebe, à tarde, o Sol que apresenta maior intensidade luminosa, mais forte, por isso a chamamos de Face do Sol da tarde.

            Em direcionamentos de plantio próximos ao Norte/Sul (0-180º), quase que sempre, o cafeeiro tem a face da direita recebendo o Sol da manhã logo cedo e a face da esquerda demorando muito tempo para estar exposta ao Sol, e por ser mais sombrio, apresenta menor diferenciação de gemas em flores e maior incidência de doenças, tais como ferrugem e phoma. O lado esquerdo ainda recebe o Sol mais “forte”, sendo ele o Sol da tarde, o que, dependendo da localidade em que se cultiva café, pode surtir em injúrias devido ao excesso de exposição solar e temperatura, como a escaldadura e doenças como a cercosporiose.

A ação micro-climática indireta, via maior ataque de doenças, é muito nítida no campo. Pode-se observar facilmente que a face dos cafeeiros voltada para o Sol da manhã apresenta folhas maiores e de coloração verde mais escuro e essa face sempre apresenta menos doença e menor  desfolha. No outro lado, onde o Sol demora mais para incidir, ocorre maior desfolha e ao se verificar as folhas caídas, elas, em sua quase totalidade, apresentam  lesões por fungos, como a Phoma/Ascochyta. A explicação para isso é que, nessa exposição, a folhagem não seca rapidamente, logo pela manhã, e, assim, fica com maior  molhamento, condição importante para aumentar  a germinação e infecção pelos esporos dos fungos causadores das doenças.

Temos portanto, que quando o direcionamento de plantio é desfavorável, ocorre a formação do efeito das faces distintas, sendo uma delas, a Face do Sol da tarde, a mais prejudicial, tanto pela maior ocorrência de doenças (sombra pela manhã), quanto pela maior ocorrência de escaldadura (Sol da tarde).

De acordo com o clima, manejo, sistema de condução de lavouras, existem localidades cafeeiras que a pressão de doenças é o fator limitante a produção satisfatória da cultura e regiões que o excesso da exposição solar (escaldadura) limita a produtividade. Dessa forma, os direcionamentos de plantio mais ou menos favoráveis para o cafeeiro são variáveis.

O sol e sua influência nos cafeeiros:

Primeiramente vamos entender princípios simples da astronomia, com relação ao Sol e sua relação com a Terra.

Como a órbita da terra em torno do Sol é uma elipse, e não um círculo, existem momentos que a Terra está mais próxima do Sol, e possivelmente as temperaturas serão maiores. Isso ocorre no hemisfério sul entre 4 a 7 de janeiro, durante nosso verão. Essa informação por si só já nos orienta a evitar plantios nessa data devido às temperaturas exacerbadas.

A Terra não está em um eixo reto e sim inclinado. Esta inclinação forma um ângulo entre o plano do equador o plano orbital da Terra de 23º27’ (obliquidade da eclítica). Dessa forma a medida que a Terra orbita o Sol, os raios solares incidem mais diretamente em um ponto de latitude do que no outro, o que proporciona mais horas de brilho solar, aquecendo mais um local do que outro. E isso é variável nas estações do ano.

No equador, aonde se também cultiva cafés e nos países ali próximos com baixas latitudes, todas as estações do ano são parecidas, recebendo diariamente 12 horas de Sol. No caso da cafeicultura Brasileira, presente nas latitudes 23 a 12 o recebimento de brilho solar e temperaturas é distinto.

No Brasil, temos cafeicultura desde o Paraná, próximo a latitude -23º, passando por uma grande concentração de municípios nas latitudes -21º, -20º e -19º (Sul de Minas Gerais, Alta e média Mogiana, Oeste de Minas Gerais/Cerrado de Minas Gerais), indo até ao Norte de Minas, Cerrados da Bahia e de Goiás nas latitudes -17º, -16º e até -12º15’, em Barreiras, por exemplo. Lembrando que em todos esses municípios as altitudes em que se cultiva o café variam muito, fato este que altera drasticamente a temperatura local. Outro ponto é a proximidade do mar e a recepção de influência do ar úmido do oceano, como por exemplo em Vitória da Consquista, BA, latitude -14º88’ e Caparaó, MG na latitude -20º51’.

            A insolação é a quantidade de energia solar recebida, por unidade de tempo e por unidade de área e varia de acordo com a distância Terra/Sol. Chama-se constante solar e vale 1367 W/m2. Dependendo da latitude, estação do ano e hora do dia essa distância é variada e consequentemente a insolação também. Ou seja, existem localidades e em estações do ano que o Sol da tarde apresenta uma insolação muito maior que o Sol do meio dia, por exemplo.

Na agricultura é importante conhecer o tempo de insolação a cada dia e ao longo do ano, bem como as diferentes inclinações com que chegam os raios solares. A Terra descreve uma órbita elíptica ao redor do Sol, com uma volta a cada 365,25 dias.

Figura 1. Fonte: Bedaque, (2016).

            Quando falamos que o Sol nasce no Leste e se põe no Oeste estamos apenas generalizando. Isso vai depender da latitude, em cada hemisfério e da estação do ano. No hemisfério sul, durante o verão o sol nasce a direita do leste e no inverno à esquerda. O Sol sofre oscilações de intensidades variadas devido a sua inclinação de 23,5º. Dessa forma, no Equador, latitude 0º a amplitude de oscilação do Sol é de 2 x sua inclinação (23,5º), totalizando 47º. Em São Paulo, por exemplo, na latitude 23,5º a oscilação é de 51,4º.

Tabela 1. Azimute do nascimento do Sol para três localidades brasileiras distantes, entre as latitudes -23,5º e 3,7º (extremas).

Local Latitude (º) Solstício de verão Solstício de inverno Amplitude
São Paulo -23,5 64,3 115,7 51,4
Brasília -15,8 65,6 114,4 48,8
Fortaleza -3,7 66,5 113,5 47,0

Fonte: Bedaque, (2016).

            Em São Paulo o Sol nasce no verão com 64,3º e no inverno a 115,7º. Como São Paulo é uma localidade de clima ameno, o excesso de exposição solar, do verão, e o calor não faria tantos efeitos deletérios ao cafeeiro quanto o excesso de sombra (doenças). Por isso, supõem-se que o melhor direcionamento de plantio, para lá, estaria mais próximo de 115,7º (orientando-se pelo Solstício de inverno) do que de 64,3º (orientando-se pelo Solstício do verão). Já em Brasília, devido às altas temperaturas e os efeitos já conhecidos na cafeicultura ali presente, deve-se procurar direcionamentos próximos ao 66,5º (Solstício de verão) para que, durante o verão, cuja as temperaturas são maiores, tenha-se, na maior parte dos dias, um direcionamento de plantio compatível com a trajetória do Sol neste período, evitando a formação dos “lados” mais ou menos expostos.

            Ou seja, evitar a formação dos “lados” ou “faces” mais ou menos expostos é praticamente impossível, visto que o Sol se movimenta ao longo do ano. Dessa forma, conhecendo-se esse movimento e a amplitude desta oscilação, deve-se, de acordo com as características da região, optar-se pelo direcionamento que evite e/ou favoreça determinada formação de face, pelo menos por uma duração da estação do ano. Em regiões com problemas de excesso de exposição solar, com escaldadura, cercosporiose e etc. deve-se optar por direcionamento iguais ou inferiores a 90º. Em regiões com problemas ligados ao frio, sombra e umidade, tais como doenças de ferrugem e phoma deve-se optar por direcionamentos iguais ou superiores a 90º. Lembrando que a oscilação pode ser de +-50°. Em Carmo do Paranaíba, MG, temos um exemplo de que o direcionamento foi de 135°, ou seja 90° + 45°.

            Como já dito anteriormente, dependendo da localidade em que estamos, o sentido de deslocamento do sol é diferente, além de oscilar ao longo do ano. Dessa forma, em cada localidade cafeeira deve-se buscar um sentido de direcionamento de plantio afim de uniformizar a exposição solar. Além disso, de acordo com outras características da região, tais como temperatura e pluviosidade, e também característica da lavoura, como espaçamento, altura das plantas, variedade e declividade, o correto direcionamento de plantio pode sofrer alterações pois essas condições podem favorecer maior ou menor ocorrência de pragas, doenças, injúrias e processos indesejados, como uma maturação muito acelerada (quente) e/ou atrasada (frio).

            Sabe-se que o que realmente limita o correto direcionamento de plantio, de fato, é a topografia, para que se plante sempre em nível e o formato do terreno, evitando a projeção de linhas muito curtas. Porém, em situações, geralmente planas e ondulada pode-se optar por um direcionamento de plantio mais adequado, ou pelo menos evitar os mais prejudiciais. Existem também os plantios circulares, utilizados em Pivô Central, em que há praticamente todos os possíveis direcionamentos de plantio, visto que é um circulo, de fato (Figura a seguir). Nessa situação, existem partes de setores do pivô plantadas em direcionamentos ótimos, com cafeeiros apresentando uma série de características muito distintas de outros locais, em poucos metros de distância.

Fonte: Cassia, (2013)

Figura. Direcionamentos de plantio em um pivô.

Ao longo da história a pesquisa realizou uma série de trabalhos do tipo “Rosa dos Ventos” a fim de mensurar o comportamento dos cafeeiros em diferentes direcionamentos de plantio em cada localidade. Alguns mensurando a produtividade e outros, também a pressão de doenças e pragas. A esses trabalhos temos a consolidação da informação teórica e prática individualizada para cada região cafeeira, pena que são poucos. O ideal seria ter um trabalho a cada 2º de latitude, para localidades de clima frio e localidades clima quente e se fazer uma meta-analise dos dados.

Fonte: Google (2016).

Figura. Exemplo de experimento do tipo “rosa dos ventos” instalado nas cinco localidades estudadas para se obter os dados. Exemplo: Espírito Santo do Pinha, SP.

            Os trabalhos foram instalados em cinco localidades, descritas na Tabela a seguir.

Tabela. Principais características das cinco localidades estudadas.

Loc Lat Lon Alt TM Plu Clas Var Esp(m)
Carmo do Paranaíba, MG -19° -46°18’ 1.050 19,5ºC 1379 “frio” CV 144 4 x 0,5
Espírito Santo do Pinha, SP -22°1’ -46°40 863 19,4 1531 “frio” Acaiá 474-19 3,5 x 0,7
Araguari, MG -18°65’ -48°18’ 939 21.2 1566 “quente” CV 144 4 x 0,5
Franca, SP -20°58 -47°36’ 980 21.5 1650 “ameno” CA 62 3,7 x 0,6
Luis Eduardo Magalhães, BA -12°09’ -45°78’ 710 22,5ºC 1613 “muito quente” CV 144 4 x 0,5

Loc. – Localidade; Lat. Latitude; lon. – Longitude; Alt. – Altitude; TM – Temperatura Média; Plu. – Pluviosidade; Clas. – Classificação; Var. – Variedade; Esp. – Espaçamento (m);

Como resultado, tem sido observadas, na prática, grandes diferenças de produtividade das plantas, conforme  a exposição ou  lado da linha em que se encontram. Em diversos experimentos, onde diferentes alinhamentos das linhas de plantio do café foram comparados,  em váriadas posições em relação ao Norte, foram verificados diferenciais de 25 a 40% a mais de produtividade nos melhores direcionamentos de plantio. Resumindo os resultados temos que em localidades muito quentes deve-se evitar um direcionamento que exponha, excessivamente, um dos lados da linha de plantio ao Sol da tarde (Sol mais intenso), em função da escaldadura e seus efeitos deletérios ao crescimento vegetativo, maturação e produção. Em localidade mais frias, esta exposição excessiva ao sol da tarde não é tão prejudicial, sendo o pior efeito, do outro lado da linha do café, devido à formação de uma face molhada durante um longo período do dia, o que favorece a ocorrência de doenças, tais como phoma e ferrugem.

            Em Carmo do Paranaíba, o clima é frio. Portanto sabe-se que o lado do Sol da tarde é que vai ser o fator limitante, por conta do maior tempo de sombra matinal. Veja que que nas áreas sem tratamento fitossanitário o direcionamento 0-180º foi o que promoveu a maior pressão de doenças e consequentemente menor produtividade. O direcionamento 135-315° balizou as oscilações do Sol nesta região equilibrando melhor a exposição solar nas duas faces obtendo as maiores produtividades. Este direcionamento é influenciado pelo Solstício de inverno pois aumento o ° em relação ao 90-270° do Leste/Oeste.

Tabela. Resultados de direcionamento de plantio para Carmo do Paranaíba, MG.

<table class="table table-striped" "="" style="box-sizing: border-box; border-collapse: collapse; width: 730px; max-width: 100%; margin-bottom: 1rem; color: rgb(33, 37, 41); font-family: -apple-system, BlinkMacSystemFont, &quot;Segoe UI&quot;, Roboto, &quot;Helvetica Neue&quot;, Arial, sans-serif, &quot;Apple Color Emoji&quot;, &quot;Segoe UI Emoji&quot;, &quot;Segoe UI Symbol&quot;; font-size: 16px;">

Direcionamento de plantio Produtividade Ferrugem Com fitossanidade Sem fitossanidade Incidência Sacas/ha % N/S (0-180º) 32 ab 24 b 22 b NL/SO (45-225º) 32 ab 29 ab 12 a L/O (90-270º) 34 ab 30 ab 12 a NO/SL (135-315º) 40 a 33 ab 14 a CV (%) 31 21

*Com fitossanidade equivale a área tratada com os devidos fungicidas e inseticidas para a correta sanidade das plantas. Área sem fitossanidade obviamente é o oposto.

Fonte: Santinato R. et al.,

            Em Espírito Santo do Pinhal, SP, o clima também é frio, e é muito semelhante ao de Carmo do Paranaíba, porém estão a 3° de latitude de diferença. O melhor direcionamento foi o de 90-270°, ficando em segundo colocado o 135-315° (Carmo do Paranaíba). Dessa forma, o melhor direcionamento esta entre esses dois pontos. Ou seja, para as duas localidades de clima semelhante o balizador é o Solstício de inverno pois eleva o ° em relação ao 90-270° (Leste/Oeste).

Tabela. Resultados de direcionamento de plantio para Espírito Santo do Pinhal, SP.

Direcionamento de plantio Produtividade Ferrugem Bicho Mineiro
Com fitossanidade Sem fitossanidade Incidência Infestação
Sacas/ha %
N/S (0-180º) 23 c 20 c 20 35
NL/SO (45-225º) 26 bc 21 c 18 32
L/O (90-270º) 34 a 29 ab 14 22
NO/SL (135-315º) 29 ab 25 bc 17 28
CV (%) 16,6 19 29

*Com fitossanidade equivale a área tratada com os devidos fungicidas e inseticidas para a correta sanidade das plantas. Área sem fitossanidade obviamente é o oposto.

Fonte: Santinato R. et al.,

            Em Franca, SP, o clima é ameno, com temperaturas mais altas que as duas localidades anteriormente explanadas. Além das diferenças entre latitude, altitude e etc. Nesta localidade, o melhor direcionamento foi o 90-270° e o segundo melhor o 45-225°. Desta vez, o balizador foi o Solstício de Verão, vide que houve uma redução de ° em relação ao 90-270° (Leste/Oeste). O melhor direcionamento de plantio para esta localidade está entre os dois melhores, porém mais tendencioso para o 90-270°.

Tabela. Resultados de direcionamento de plantio para Franca, SP

Direcionamento de plantio Produtividade
Sacas/ha
N/S (0-180º) 32
NL/SO (45-225º) 44
L/O (90-270º) 52
NO/SL (135-315º) 40
CV (%) 31

Fonte: Santinato, R. et al.

            Na localidade de clima mais quente do estudo o melhor resultado foi o direcionamento 90-270° (Leste Oeste). Nela a pressão de doenças é muito baixa e o fator limitante de fato é o excesso da exposição solar. Aqui o balizador foi o Solstício de inverno devido ao segundo colado ter sido o direcionamento 135-315°.

Tabela. Resultados de direcionamento de plantio para Luis Eduardo Magalhães, BA

Direcionamento de plantio Produtividade
Sacas/ha
N/S (0-180º) 49
NL/SO (45-225º) 54
L/O (90-270º) 77
NO/SL (135-315º) 67
CV (%) 25

Fonte: Santinato, R. et al., (2002).

            Araguari tem a peculiaridade de ser uma região considerada quente e ainda apresentar severidade na incidência de doenças. Os melhores direcionamentos de plantio foram entre 90-270° e 135-315°, sem diferença estatística entre ambos. Novamente o balizador foi o Solstício de inverno.

Tabela. Resultados de direcionamento de plantio para Araguari, MG.

Direcionamento de plantio Produtividade
Sacas/ha
N/S (0-180º) 54
NL/SO (45-225º) 53
L/O (90-270º) 61
NO/SL (135-315º) 64
CV (%) 22

Fonte: Adaptado de Santinato, R. et al., (2015).

Abaixo temos a Figura estratificando os lados A e B, lado do Sol da Tarde e Sol da manhã para que se possa notar os efeitos deletérios mencionados atuando na produtividade do cafeeiro.

Figura. Efeito dos Lado do Sol da tarde e Sol da manhã em Luis Eduardo Magalhães, BA.

Fonte: Santinato, R. et al., (2002).

Figura. Efeito dos Lado do Sol da tarde e Sol da manhã em Luis Eduardo Magalhães, BA com e sem a aplicação de 20 kg/ha de açúcar cristal e/ou melaço de cana de açúcar.

Fonte: Santinato, R. et al., (2006).

A seguir temos a luminosidade para três regiões cafeeiras: Carmo do Paranaíba, MG; Luiziânia, GO e Luis Eduardo Magalhães, BA:

Figura. Luminosidade para três regiões cafeeiras (1999 a 2005).

Tabela. Resumo dos direcionamentos de plantio mais apropriados e não favorável para cinco localidades cafeeiras no Brasil.

Melhor direcionamento de plantio
Carmo do Paranaíba e Araguari

Condição que reduziu o lado de sombra excessivo. Aqui o lado de sombra é o fator limitante devido a ocorrência de doenças e possivelmente de menor diferenciação de gemas em flores
Franca, LEM, Pinhal

Condição que balanceou os prós e contras do excesso de sol e sombra, mesmo tratando-se de regiões completamente diferentes.
Pior direcionamento de plantio
Todos

Lado que promove, em média, as maiores exposições de Sol da tarde e sombra da manhã.

Tabela. Resumo de resultados relacionados a exposição solar no cafeeiro.

Parâmetros Clima “quente” Clima “frio”
Lado sol da tarde Lado sombra da manhã Lado sol da tarde Lado sombra da manhã
Produtividade Menor Maior Maior Menor
Maturação Desuniforme (Seco) Uniforme Uniforme Desuniforme (Verde)
Doenças em elevada incidência Cercosporiose Ferrugem, phoma, cercosporiose Ferrugem, phoma
Pragas em elevada infestação Bicho mineiro Bicho Mineiro Broca
Florada/pegamento Inadequado (abortamento) Adequado Adequado Inadequado (não diferenciação)
Carmo do Paranaíba e Espírito Santo do Pinhal (clima ameno e elevada pressão de doenças)
Lado da sombra Lado do sol

Fonte: Silva, V.A (2016).

Figura. Comparativo entre lado da sombra (manhã) e lado do sol (tarde).

Escaldadura no lado exposto ao sol da tarde no Oeste da Bahia

Fonte: Santinato, F (2014).

Figura. Efeito da escaldadura no lado do sol da tarde em Luis Eduardo Magalhães, BA.

Na região do Planalto de Conquista – BA, região fria e úmida, muito sujeita a ataque de Phoma/Ascochyta, pode-se ver, à direita, face da linha de cafeeiros voltada para o sol da manhã, com folhas maiores e mais verdes e com pouca desfolha, ao contrario da grande desfolha na face voltada para o sol da tarde (foto esquerda).

 

Fonte: Matiello, (2020).

Terços da planta:

            O cafeeiro também apresenta variabilidade de forma vertical na planta. Segmentando-a em terços inferior, médio e superior, percebemos uma série de diferenças, principalmente com relação a maturação dos frutos.

            Quanto mais altas as lavouras e/ou quanto maior o autosombreamento, e este é influenciado pelo direcionamento de plantio, espaçamento e variedade, mais evidentes são essas diferenças.

            O terço superior recebe maior exposição solar, é mais arejado e é formado por ramos novos, herbáceos, de menor comprimento e menor efeito “guarda-chuva”, e por conta disto:

*Efeito guarda-chuva ocorre quando os ramos acima, mais novos, compridos e enfolhados, encobrem os ramos de baixo, mais velhos, gastos e inclinados para baixo, reduzindo a exposição solar.

A) A infestação de bicho mineiro por ali se inicia.

B) A floração comumente é mais intensa

C) A velocidade de maturação dos frutos é mais intensa.

D) Os frutos se desprendem mais facilmente pois estão mais maduros e/ou sofrem mais a ação de ventos e chuva.

            O terço médio tem influência da exposição extremamente variada conforme o enfolhamento da lavoura, produtividade e variedade. Existem variedades com conformação da copa mais arejada que outras tais como Arara, IPR 100, Obatã, e outras mais densas, como Catuaís, Catucaís. A questão da ramificação ou palmeamento também influi nesse aspecto. Mundo Novo e Bourbom por exemplo, por palmearem muito pouco recebem uma exposição solar mais uniforme que as demais cultivares.

            O terço inferior por sua vez, recebe comumente menos exposição solar nos ramos mais externos, e muito pouco nos ramos encobertos pelo efeito guarda-chuva. Normalmente a diferenciação das gemas em flores e posteriormente em frutos é bem menor, a depender da variedade. Existem variedades tais como os Catucaís e Acauãs que aparentemente possuem uma habilidade maior em diferenciar gemas em flores mesmo sob baixa exposição solar. Do contrário os Catucaís e os porte Alto que diferenciam muito pouco, ficando o terço inferior pouco produtivo quando as lavouras ficam adultas, mesmo após podas.

            O amadurecimento desses frutos do terço inferior é muito vagaroso, existindo alguns casos que no momento da colheita, boa parte deles é colhido verde, ou ainda em estágios fenológicos anteriores à granação, ainda aquosos, não sendo contabilizados na colheita. Isto é péssimo pois foram gastos nutrientes ali sem retorno econômico, além do que a diferenciação ocorreu “roubando” lugar de uma próxima, na safra seguinte.

            Nos três terços da planta há também a questão fitossanitária e nutricional. Os aspectos descritos anteriormente fazem referência a lavouras nutridas adequadamente, com baixo índice de seca dos ponteiro (die-back), comumente enfolhadas e produtivas e baixas infestações de pragas e incidências de doenças. Quando algum desses fatores está em desorderm a exposição solar é muito maior nos três terços da planta, notadamente nos terços superior e médio e variável nos lados de sombra da manhã e Sol da tarde, a depender do clima da região que se cultiva o cafeeiro.

            O efeito da exposição solar diferenciada nos terços da planta pode ser visto nesta tabela extraída da Tese de Doutorado de Santinato, F (2016), em trabalho conduzido em Presidente Olegário, MG, em Lavoura de Café adulta, com 11 anos de idade, plantada em círculo, irrigada por pivô central.

Tabela 1. Análise descritiva para os estádios de maturação do café nos terços superior (TS), médio (TM) e inferior (TI) e na planta inteira (PI).

Terço Maturação Média Mediana Amplitude DP CV Cs Ck RJ
(%)
Superior Verde 3,3 a 2,5 22,6 3,81 116,17 2,53 8,16 0,899ns
Cereja 54,7 a 54,1 87,1 0,71 37,84 -0,08 -0,68 0,992ns
Seco 42,0 a 43,2 91,8 21,60 51,43 0,12 -0,67 0,993*
Médio Verde 8,8b 6,6 46,1 7,44 84,74 2,03 5,50 0,907ns
Cereja 65,2bc 66,7 84,6 17,52 26,88 -0,99 0,98 0,966ns
Seco 26,0b 21,4 84,5 18,24 70,09 1,13 1,13 0,955ns
Inferior Verde 15,0c 12,2 54,5 10,44 69,35 1,26 1,73 0,953ns
Cereja 67,9c 70,5 76,7 15,98 23,52 -1,26 1,76 0,950ns
Seco 17,1 a 14,0 70,9 14,98 87,48 1,57 2,61 0,927ns
Planta inteira Verde 9,0b 7,8 289 5,45 60,36 1,36 2,20 0,947ns
Cereja 62,6b 63,6 503 11,24 17,94 -0,27 -0,30 0,993*
Seco 28,4b 27,5 59,3 12,24 43,14 0,35 -0,25 0,993*

DP: desvio-padrão; CV: Coeficiente de variação; Cs: coeficiente de assimetria; coeficiente de curtose; RJ: teste de normalidade de Ryan-Joiner; *: significativo a 5% de probabilidade; ns: não significativo a 5% de probabilidade.

Fonte: Santinato, F. (2016).

            Esta variabilidade pode ser mais bem notada nas Cartas de Controle extraídas da mesma Tese.

Fonte: Santinato, F. (2016).

Figura. Carta de controle para valores individuais do estádio de maturação verde nos terços superior, médio e inferior.

Fonte: Santinato, F. (2016).

Figura. Carta de controle para valores individuais do estádio de maturação seco nos terços superior, médio e inferior.

  Obviamente não é somente devido a exposição solar, mas som certeza este é um dos principais fatores que influenciam a variabilidade espacial da produtividade. Além do que a produtividade é um dos principais fatores que influencia a variabilidade espacial da maturação. Veja a seguir, em representações de mapas de isolinhas a produtividade e maturação de frutos secos, por exemplo.

Fonte: Santinato, F. (2016).

Figura. Mapa da distribuição espacial da produtividade do cafeeiro.

Fonte: Santinato, F. (2016).

Figura. Mapa da distribuição espacial do estádio de maturação dos frutos seco

          Todos esses aspectos refletem em nosso manejo, bastando conhece-los para tentarmos propor soluções que reduzam seus impactos negativos. Conhecer os efeitos da exposição solar é importantíssimo. Saber que dependendo do direcionamento que se plantou a lavoura esses efeitos são mais ou menos intensos é de suma importância visto que a lavoura estará plantada ali por 15, 20, 30 anos….

Referencias:

SANTINATO, R.; PEREIRA, E.M.; SILVA, V.A.; FERNANDES, A.L.T. Efeitos do direcionamento norte-sul (NS), leste-oeste (LO), nordeste –sudeste (NO-SL) e noroeste-sudoeste (NL-SO) das linhas de plantio do cafeeiro nos altiplanos do cerrado com altitudes superiores a 900 m.

SANTINATO, R.; SANTO, J.E.; FERNANDES, A.L.T.; FIGUEIREDO, E.; ALVARENGA, M.; MOREREIRA, W.V. Posicionamento de plantio do cafeeiro nas condições do Oeste da Bahia.

SANTINATO, R.; SILVA, R.O; FERNANDES, A.L.T.; SANINATO, F.; QUERINO, L.D. Produtividades iniciais do cafeeiro em função do plantio em todos os pontos cardeais nas condições do cerrado de Araguari-MG.

SANTINATO, R. SILVA, V.A.; PUCCINELLI, L.F. Efeito do posicionamento/luminosidade no plantio do cafeiro nas condições da região de Franca, SP.

SANTINATO, R. SILVA, V.A.; SANTINATO, F. Efeito da luminosidade no plantio do cafeeiro nas condições da região Baixa mogiana, Espírito Santo do Pinhal, SP.

BEDAQUE, P. BRETONES, P.S. Variação da posição de nascimento do sol em função da latitude. Revista Brasileira de Ensino de Física, v.38., n.3, 2016.

INOVAÇÕES TECNOLOGICAS NA CULTURA DO CAFÉ. Tese de Doutorado, Santinato, F. (2016). UNESP Jaboticabal, 243p.

Dr. Felipe Santinato – Pesquisador e Consultor da Santinato Cafés; Pós doutorando IAC, Campinas, SP.

Engenheiro Agrônomo formado na UNESP Jaboticabal (05/08/2013), Mestre em Produção Vegetal pela UFV Rio Paranaíba (22/07/2014), Doutor em Produção Vegetal pela UNESP Jaboticabal (05/12/2016), trabalhando principalmente com Nutrição de plantas, Colheita mecanizada do café e Agricultura de Precisão. Publicou dois livros, 39 Artigos Científicos Nacionais e Internacionais, 133 Trabalhos publicados na área, cinco Capítulos de Livros, nove Boletins Técnicos, ministrou cerca de 69 palestras e treinamentos para agrônomos, consultores e cafeicultores em todo território cafeeiro. Atualmente é aluno de Pós Doutorado no Instituto Agronômico de Campinas (IAC), aonde realiza pesquisas objetivando aumentar a eficiência na utilização dos nutrientes na cafeicultura, entendimento e redução da bienalidade produtiva e sustentabilidade do processo de produção de café. Também lidera um amplo projeto, interinstitucional sobre resistência a seca, bicho mineiro, nematoides e produtividade, com novas variedades em áreas irrigadas e de sequeiro, em quatro localidades do Cerrado Mineiro e Goiano. Produz café em São Paulo e Minas Gerais, presta consultoria em Fazendas e coordena  cinco Campos Experimentais (São João da Boa Vista, SP; Patos de Minas, MG; Rio Paranaíba, MG; Araxá, MG e João Pinheiro, MG).

Fonte: Santinato Cafés

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